terça-feira, 22 de outubro de 2013

Sereias: Mito ou Realidade?


Na Mitologia Grega, são seres metade mulher e metade peixe (ou pássaro, segundo alguns escritores antigos) capazes de atrair e encantar qualquer um que ouvisse o seu canto.
sereiasSeu número variava. Viviam em uma ilha do Mediterrâneo, em algum lugar do Mar Tirreno, cercada de rochas e recifes ou nos rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália.

A sedução provocada pelas sereias era através do canto. Os marinheiros que eram atraídos pelo seu canto e se aproximavam o bastante para ouvir seu belíssimo som, descuidavam-se e naufragavam.

Em geral são consideradas filhas do deus rio Aqueloo e da musa Melpômene ou de Terpsícore. Homero afirmou que elas podiam prever o futuro, o que condiz com divindades nascidas de Gaia.

Elas participam da lenda de Odisseu e dos Argonautas, em ambos os casos eles resistiram ao seu canto. Os argonautas, por causa da música de Orfeu, e Odisseu por causa do conselho recebido de ser amarrado ao mastro e ordenar à tripulação tapar os ouvidos com cera para não escutarem o canto das sereias.

As mais extensas referências a elas são as da Odisséia, as da Argonáutica, de Apolônio de Rodes. A mais antiga é a da Odisséia.

Há muitos mitos na Grécia Antiga sobre sereias, alguns dizem que elas seriam mulheres que ofenderam a Deusa Afrodite (deusa da beleza e do amor) e como castigo foram viver em um ilha isolada. Em outros conta-se que elas eram ex-companheiras de Perséfone, filha de Zeus e Deméter, que foi raptada por Hades, Deus dos Infernos. Segundo a lenda, as sereias devem sua aparência a Deméter, que as castigou por terem sido negligentes ao cuidarem de sua filha

As sereias eram representadas como grandes pássaros com cabeça e busto de mulher. Podemos encontrar sua figura presente em frisos, monumentos fúnebres, vasos da arte grega, estatuetas, jóias e outras obras.
As sereias representam na cultura contemporânea o sexo e a sensualidade.
Em nossos dias, utiliza-se ainda a expressão "canto da sereia" que designa algo que tem grande poder de atração em que as pessoas caem sem resistência.
Na literatura moderna, as sereias inspiraram muito poemas e numerosas obras, como O Silêncio das Sereias, de Kafka (1917), A história da sereia, de E.M. Forster (1947), As sereias de Titã, de Kurt Vonnegut (1959), entre muitas outras.





“Muito longe da terra, onde o mar é muito azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas, todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar.
A filha mais nova era especial, com sua pele fina e delicada como uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não tinha pés mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia”.

Assim se inicia, na atmosfera melancólica do Romantismo, um dos primeiros contos de Hans Christian Andersen (1836), apropriadamente intitulado A Pequena Sereia. Arquétipo bondoso das antigas beldades mitológicas híbridas, meio-mulher, meio-peixe, de voz encantadora.

As Perigosas Mulheres Voadoras


A bem da verdade, as primeiras sereias - sirenas -, popularizadas na Grécia Antiga, não eram particularmente atraentes. Deviam mesmo ser evitadas.

Eternizadas por Homero (o grande educador da Grécia, enunciou Platão) e Virgílio, os seus leitores ficaram a saber que estas invulgares criaturas habitavam um punhado de idílicas ilhas mediterrânicas, próximas do Estreito de Messina entre a Sicília e a Península Itálica.
Porém, estas ensolaradas ilhotas paradisíacas beijadas pelo mar cálido e abençoadas pelo fértil solo vulcânico guardavam histórias inquietantes.
As maléficas habitantes notabilizavam-se por irresistíveis dotes musicais que atormentavam os navegadores desprevenidos.

Outro pormenor sobressaía dessas ilhas: estavam cheias de ossadas humanas, restos das vítimas arrastadas pelas vozes sedutoras das sereias que os devoraram. Um perigo difícil de evitar, pois quem pode escapar àquilo que deseja?

A morada das sereias, tornada em formidável obstáculo marítimo, deixou o seu legado até hoje no diminuto arquipélago que ostenta a sua origem mitológica: os ilhéus Sirenusas (ou Galli) ao largo do Sul de Itália, de onde foram desalojadas pelas hordas de turistas anualmente despejadas na vizinha costa de Amalfi, Positano e Capri.
 
A paternidade das sereias sempre foi problemática e diversamente atribuída. Uns queriam que fosse Forcis, divindade marinha pouco simpática com os navegadores - representava os perigos das profundezas marítimas -, ou, na versão mais bem sucedida, à união do deus-rio Aqueloo e da ninfa Calíope. Outros ainda afirmavam terem as temíveis sereias brotado do próprio sangue derramado por Aqueloo após a sua derrota às mãos de Hércules. A genealogia não ajuda, pela falta de clareza dos seus progenitores.

Quanto ao pormenor genético que originalmente as distinguia, as asas - ou o corpo - de ave, os autores mais antigos também não concordam.

Segundo Ovídio (Metamorfoses), as sereias teriam ganho asas em resposta à súplica aos deuses para procurarem a bela Perséfone (romana Prosérpina), que acompanhavam quando esta foi raptada pelo deus do infra-mundo e governante do mundo dos mortos Hades (romano Plutão). Outra versão estabelecia que se tratava de uma punição infligida pela deusa Deméter (romana Ceres) por não terem impedido o rapto da jovem Proserpina sua filha.

O que é certo é que as línguas nórdicas retiveram a distinção entre as sereias (sirens) originais e as posteriores mutações mitológicas em donzelas do mar (inglês mermaid ou alemão seejungfrau, por ex.), literalmente.

Já para o comum homem medieval, tudo o que viesse à rede com tronco de mulher e cauda de peixe só podia ser sereia, sem penas.


De Aves a Peixes


A entrada das sereias no mundo marinho deve-se a Ulisses, o bravo rei de Ítaca que , na noite dos tempos, teria fundado Lisboa e ainda desnorteado um bando de sirenas a tal ponto que estas, de tão desesperadas, se lançaram no mar.

Este episódio, seguramente o mais célebre da longa vida das sereias, foi amplamente ilustrado na Grécia Antiga, demonstrando o estratagema eficaz com que se anulou o canto funesto das mulheres-aves: Ulisses tapou os ouvidos com cera de mel e fez-se amarrar ao mastro do seu navio  para atravessar a melodia mortal.

Com o passar dos séculos e a mudança das mentalidades ocidentais, o mito das sereias evoluiu.

Eminentemente sedutoras, povoaram o recatado imaginário medieval nas páginas de inúmeros manuscritos pacientemente compilados (são mesmo muito sucintamente mencionadas no Nome da Rosa de Umberto Eco, entre os "perigosos" exemplares da sinistra abadia). Provavelmente o mais conhecido  bestiário terá sido o «Liber Monstrorum de Diversis Generibus», do séc. VIII (edição italiana online). Desta obra exaustiva das espécies bizarras, agrupando seres reais e imaginários, destaca-se a sereia.

Embora esporadicamente representada na Antiguidade na sua configuração marinha, a sereia tal como a conhecemos hoje só adquiriu definitivamente a emblemática cauda de peixe na Idade Média.

A ascensão do Catolicismo ajudou a transformar estas criaturas em fruto proibido, cuja beldade enganadora, símbolo da tentação, constituiu uma apropriada representação do Mal aos olhos da Igreja. As sereias notabilizam-se como derradeira personificação feminina da volúpia e símbolo do pecado.

No Antigo Testamento, o profeta Isaías anuncia a dança das sereias nos templos do prazer de Babilônia, após a destruição desta cidade da perdição (Isaías, 13,21).

A dimensão da perdição nas sereias não se perde com o Renascimento. O tratadista milanês Andrea Alciato, pioneiro no gênero literário dos emblemas morais, incluiu as sereias como símbolos da lascívia.

O fascínio cresceu lentamente na Idade Média e conheceu o auge da sua difusão no Renascimento. Na História da Arte européia, a perigosa beleza cativante destas mulheres aquáticas ganhou expressão notável como ícone da cultura popular medieval - apenas rivalizada pelo dragão. 


Encontros imediatos aquáticos

Das mais variadas latitudes surgiram relatos de encontros imediatos com as sereias. Alguns deixaram - insistiam os seus autores - testemunhos inequívocos da sua existência. As terras e mares distantes revelavam aos poucos os seus habitantes mais originais aos exploradores.

No prefácio ao relato do navegador Richard Whitbourne, A Discourse and Discovery of New-Found-Land (1620), dá conta de um encontro em 1610 no porto de São João da Terra Nova, futuro Canadá.


Louis Renard, «Poissons, Ecrevisses et Crabes» (1718) (Universidade de Glasgow)
Em 1718, o francês Louis Renard publicou em Amsterdam uma colecção ilustrada de desenhos científicos intitulada Poissons, Ecrevisses et Crabes: de diverses couleurs et figures extraordinaires, que l'on trouve autour des Isles Moluques, et sur les côtes des Terres Australes, onde incluiu um exemplar de sereia, capturada próximo de Amboino, no arquipélago das Molucas (atual Indonésia) que sobreviveu quatro dias e sete horas numa bacia com água. O testemunho foi obtido, juntamente com desenhos originais entre 1705 e 1715, de funcionários da Companhia das Índias Orientais holandesa.

Décadas mais tarde, em 1805, e mais a Oriente, uma outra sereia, foi alegadamente recolhida na Baía de Toyama. Bem menos atraente, de acordo com o texto, tal criatura mediria 10,6 metros.

Desenganem-se os que crêem que as sereias levam vida fácil. Para chegarem até hoje, terão sobrevivido a oligarquias, monarquias, repúblicas, às grandes revoluções e às guerras mundiais.
 
Contra todas as probabilidades, atormentadas pelos deuses antigos, superadas por Orfeu e Ulisses, depois condenadas pela moral cristã, ultrapassadas e dissecadas pela ciência das Luzes, as sereias sobreviveram. Não consta que algum especialista se tenha debruçado sobre os efeitos das alterações climáticas  ou das marés negras nestes seres delicados. A prova do seu sucesso: incorporam as suas histórias no mundo atual, principalmente na arte.

Os séculos XVIII e XIX são já pouco dignos para com as criaturas marinhas. O espetáculo das feiras ambulantes de bizarrias no Japão (misemono), com digressões pelos Estados Unidos e na Europa em respectivos freak shows, eram habitualmente protagonizados por sereias, supostamente originárias do Japão e das Índias Orientais.  De um dia para o outro, multiplicaram-se os "achados" de "sereias" por pescadores nipônicos. Alguns exemplares mais evoluídos possuíam, pois claro, o dom da fala.
Apesar da sua malícia, ou precisamente devido a ela, não deixaram de ser apreciadas ao longo da História. Porém, chegado o século XIX, a época Romântica deu uma contribuição decisiva na transformação das sereias em criaturas adoráveis. Continuaram a fascinar os mortais, cada vez mais jovens e já sem malícia.

O século XX viu nelas uma potencial fonte de receitas muito apreciável e assim se conciliou o útil com o agradável. Até surgir o momento da "verdade". É que o canto das sereias terá terminado recentemente.

Tudo isto para colocar a questão transcendental: para onde foram as sereias? E porque não ouvimos o canto delas?

Será que a moderna sociedade de ruídos e bombardeamentos audiovisuais abafou as celebradas criaturas misteriosas que outrora prosperavam nas imaginações enamoradas dos marinheiros e nas páginas de entusiásticos contadores de histórias, numa tradição milenar que remonta a Platão e que tentaram arrastar Ulisses para a sua perdição?


A questão secular ressurgiu em Maio passado, no país do costume. O canal Animal Planet, da Discovery Channel, apresentou "Mermaids: The Body Found", um documentário acerca da existência de sereias, carregado de efeitos especiais que se propõe retratar "um retrato bastante convincente da existência das sereias, da sua provável aparência e porque permanecem escondidas", nas suas próprias palavras. Em letrinhas minúsculas, adverte-se vaga e confusamente que o programa partiu de acontecimentos reais e de "teorias científicas".

Este entusiasmo e as belas imagens geradas por computador foram o suficiente para criar a polêmica. Conjecturando acerca de um hipotético estágio evolutivo apelidado de "símio aquático", as expectativas das mentes mais susceptíveis pareciam ter aqui o substrato de que necessitavam. Não terá sido grande ideia, dado que quase metade dos norte-americanos negam a Teoria da Evolução. Enquanto uns continuam a defender convictamente a existência de sereias, outros foram mais longe e apontaram provas arqueológicas do temível cefalópode gigante Kraken (que afinal não passam de vértebras de ictiossauro), equívoco prontamente desfeito pela National Geographic Society.

A comunidade científica não tardou em questionar a "ciência" do documentário. As discussões incendiaram a internet e prosseguiram o tempo suficiente até perderem a novidade. Mas, perante a enxurrada de emails de cidadãos crédulos com que foi assediada, a própria administração oceanográfica norte-americana, NOAA (a NASA dos mares) viu-se forçada a emitir esta inédita, mas algo óbvia, declaração oficial à população: lamentamos, mas jamais foram encontradas evidências de humanóides aquáticos.

Resta o consolo de  vestir uma cauda de peixe, como a nadadora e modelo australiana Hannah Fraser, que, inspirada pelo filme Splash, mergulha nos mares para nadar com baleias, golfinhos e tubarões em defesa do oceano e dos ambientes marinhos.

Claro se torna ser impossível apagar estas Atlântidas literárias.  Nem as maiores montanhas de água, nos vastos e ainda muito pouco conhecidos oceanos, conseguem diluir o imaginário ancestral.

Mesmo submersas e silenciosas, as sereias permanecerão para sempre inspiradoras.


 
 Mermaids: The Body Found (Discovery/Animal Planet)


Depois do documentário que ganhou o carimbo de falso pelo Discovery, pelo Animal Planet e por muita gente ao redor do mundo. Os cientistas que tiveram as provas supostamente apreendidas pela Marinha, resolveram pesquisar mais a fundo. Então, no dia 6 (seis) de março de 2013, portanto este ano, dentro de um mini-submarino, mergulhando na região da Groenlândia, o inusitado, a lenda, o mito supostamente resolveu provar que é muito mais real do que pensam nossos grandes e ortodoxos cientistas.


Desta vez, estes dois cientistas, Dr. Torstein Schmidt e seu colega simplesmente conseguiram supostamente filmar não só todo um "cardume" de sereias passando pelo mini-submarino, como gravaram o momento inusitado em que uma delas toca o vidro do mini-submarino, deixando-se ver claramente.

Assista ao vídeo e tire suas próprias conclusões.
 


Sereias - Novos Indícios [Dublado - Discovery Channel HD]




Fonte:
RIBEIRO JR., W.A. As sereias. Portal Graecia Antiqua, São Carlos.
 

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